GENTE DE LAVRAS: a história de uma turismóloga

Ao subir os degraus da padaria e comércio em funcionamento mais antigo da cidade, a Padaria São José, qualquer lavrense sabe que será impossível sair de lá sem um saquinho de broa de milho, ou comer uma recheada com refri no balcão. Sabe também que será recebido com um largo sorriso.

Essa combinação de simpatia e qualidade é resultado da união do Daniel, neto do fundador da padaria, e sua esposa, a turismóloga Fernanda Teixeira Carvalho, conhecida como Ferê. Ela, que hoje ocupa o balcão de entrada do empreendimento, recebeu-me para um papo no escritório do comércio familiar e, ao som das máquinas do trabalho diário, deixou visível que está exatamente onde gostaria de estar.

“Durante minha adolescência, sempre fui rebelde com relação a estar em Lavras, porque queria muito ter crescido na cidade em que nasci (Porto Alegre). No entanto, quando fui embora daqui, passei a dar mais valor, aliás como acontece com todo mundo que vai embora desta cidade”.

Ferê nasceu na capital gaúcha porque seus pais, os lavrenses Maurício e Glorinha, moravam ali quando casaram. Quando Fernanda tinha quatro anos, a família retornou ao interior, já que o avô paterno necessitava de cuidados.

“Apesar de pouca idade, senti muito a mudança. Mas aos poucos comecei a me envolver com tudo o que a cidade proporcionava. Logo ganhei um irmão, Murilo, e participava de qualquer coisa que surgia. Tentei o balé, fiz curso de pano de prato, de boneca de cera, fiz os primeiros cursos de informática que surgiram e dancei na invernada artística do CTG Lanceiros do Batovi até ele terminar; e depois continuei dançando quando virou a Cia de Danças”.

Sempre muito estudiosa e com poucos vizinhos da sua idade, Fernanda mantinha a vida social dentro da escola. “Morava em uma casa com muitos prédios comerciais em volta, então minhas relações de amizade aconteciam na Escola. Estudei todo o ensino fundamental no Licínio Cardoso e tenho lembranças maravilhosas dessa época”.

No início dos anos 2000, Fernanda finalmente conseguia iniciar seu sonho de morar fora. “Fui para Pelotas fazer cursinho pré-vestibular, já que na época o curso de turismo era o 4º mais concorrido da UFPEL”. Logo viraria universitária, mas o vínculo com Lavras do Sul aflorava cada dia mais. “Fiz minha faculdade e, quando me formei, fui morar em Porto Alegre. Eu estava realizando meu sonho, mas daí a realidade já era outra. Com a dificuldade de conseguir emprego, resolvi continuar minha especialização em Imagem Publicitária, mas morando novamente em Lavras e indo todos os finais de semana para a capital”.

Quando terminou a especialização, começou a trabalhar na Granello Sementes. “Coloquei em prática meu curso de técnico em contabilidade e de lá só sai para trabalhar na Prefeitura”.

Fernanda foi Secretária de Turismo por seis anos, primeiro no governo do ex-prefeito Paulinho Souza, depois mais dois anos com o ex-prefeito Alfredo Borges. “Apesar de ser minha primeira experiência como turismóloga, trabalhava realmente como agente política, e não como agente técnica. Me preparei para ficar somente um mandato e acabei alongando um pouco mais. Lamento que não tenha podido concluir alguns projetos legais em que me envolvi, mas saí porque precisava concluir o mestrado de Patrimônio Cultural pela UFSM.”

O trabalho, intitulado “Rota do Ouro: Um estudo sobre o resgate da memória da mineração em Lavras do Sul através de seu conjunto arquitetônico urbano”, apresenta uma proposta de roteiro turístico na cidade de Lavras do Sul, com a temática da mineração de ouro. “Além da rota, existem ideias que talvez um dia ainda sejam colocadas em prática, como a encenação de algumas lendas. Esta rota, atualmente, ganhou um certo destaque em função do retorno da mineração, e também do projeto de lei que oficializou o título lavrense de Terra do Ouro”.

Fernanda diz que hoje pratica sua paixão pelo turismo atrás do balcão da padaria. “Adoro estar aqui. A minha formação no turismo me faz adorar ter esse contato direto com as pessoas. A comida é também uma experiência cultural; então fico encantada de ver os pais trazerem seus filhos para comer uma recheada no balcão e contarem que, antigamente, também eram trazidos aqui por seus pais. Além disso, as pessoas vem até a padaria questionar sobre quais lugares devem visitar.”

Ao ser questionada sobre a maternidade, minha entrevistada engasgou e com os olhos cheios de lágrimas, disse que seu filho veio como um renovador de energias. “Nunca planejei ser mãe, fomos pegos de surpresa. Eu fiquei enlouquecida, e o Daniel super feliz. Sempre fui muito de trabalho e estudo, muito objetiva; e o José Inácio veio para dar uma quebrada e me colocar neste mundo dos afetos”.

“Não sou muito de ficar pensando no que passou e nem de ficar pensando no futuro; e, apesar de ser bastante objetiva, não gosto de criar expectativas para não me frustrar depois”. Apaixonada por história e leitora voraz, Fernanda brinca que gosta muito de ler sobre o passado coletivo, mas que na vida pessoal vive do presente.