GENTE DE LAVRAS – Maria da Graça Pires de Rodrigues

Quando a gente pensa como é uma casa de avó sempre vem à memória um lugar cheio de pequenos detalhes, de muitas histórias e cuidados, cheiro de bolo recém feito e um carinho único. A casa da Tia Maria, uma pelotense com cidadania lavrense, sempre foi assim, muito antes de se tornar avó da Sofia e do Antônio.

Desde a década de 80 a casa da Maria da Graça Pires de Rodrigues se transformou em ponto de encontro de diversas gerações de estudantes. Primeiro com a turma dos amigos dos filhos, Eduardo e Aline, depois com os alunos das escolas nas quais lecionou e agora também com os amigos dos netos.

A paixão pela história de Lavras do Sul a transformou em uma enciclopédia do município, pois desde participantes de gincanas até escritores de livros recorrem aos seus conhecimentos. Sem vaidade ela fala: “cada um de nós precisa repartir aquilo que tem”. Apesar das inúmeras tentativas de sua irmã para que vá morar em Pelotas, ela acha que ainda tem muito para fazer aqui.

A professora conta que a população está dormindo em cima das memórias da região. Há muito trabalho pela frente para que as pessoas, principalmente as crianças possam ter acesso e conhecer a fundo uma história riquíssima, que certamente é motivo de orgulho para os lavrenses.

Foi no início dos anos 70 que a Maria da Graça, na época estudante do curso de Agronomia da Universidade Federal de Pelotas, conheceu o José Antônio. Um inusitado atraso de seu primo, que seria seu padrinho numa tradicional festa da Universidade, a fez convidar um “moço bonito” que estava ali pelo salão para que a acompanhasse. “Ele, muito educado, não negou meu pedido”. Na semana seguinte descobriram que eram colegas de sala e em 1974 já estavam casados e se mudando para Lavras do Sul.

Anos antes de sua vinda para a cidade, seu avô havia conhecido o município por meio de um tio que trabalhava como Fiscal da Fazenda. As palavras dele nunca haviam saído de sua cabeça: “Conheci uma cidade que parece um presépio”. Foi amor à primeira vista.

Quando criança o pai tentou muitas vezes fazer com que gostasse das tradições gaúchas, mas somente os anos morando no Segundo Distrito, Ibaré, a aproximaram do campo, da lida e das histórias contadas pelos empregados mais velhos. Logo após o nascimento do primeiro filho, ao vir morar na sede do município, foi convidada para conhecer o grupo do CTG Lanceiros do Batovi e de lá para cá, sua paixão pelo tradicionalismo só cresceu. Já escreveu muitas poesias, letras e textos.

Hoje é uma conhecedora das lendas e hábitos dos gaúchos e costuma ajudar os pretendentes a prendas e peões a estudarem para as provas dos concursos. Um sorriso surge naturalmente quando fala do novo CTG Marco das Águas, e dos novos jovens que estão fazendo parte desse projeto. Ela diz que como professora sempre esteve preocupada em afastar os adolescentes de más energias: “Tenho a impressão que esse tipo de atividade tradicionalista cria uma espécie de halo em volta dos participantes e que eles vivem plenamente esse mundo particular de rodas de chimarrão, de ensaios, apresentações, de jogos de truco e jantas feitas pelos pais dos integrantes, em uma troca de valores muito positiva” conclui.

Uma das principais motivações do esforço em abrir o novo CTG foi devido ao enorme número de artistas que concorrem em concursos pelo Estado afora. Ela conta que eles querem levar o nome da cidade e precisavam de uma instituição na qual estivessem vinculados. O nome é uma homenagem, visto que o município (na região da Meia Lua, divisa com São Gabriel) é o divisor de águas de três Bacias Hidrográficas do Rio Grande do Sul: nascentes do Rio Vacacaí da Região Hidrográfica do Guaíba, nascentes do Rio Santa Maria da Região Hidrográfica do Uruguai e nascentes do Rio Camaquã da Região Hidrográfica do Litoral. O Marco Gaúcho das Águas foi construído em 2004 pelo Governo Estadual, idealizado pelo Eng. Zeno Simon que foi um entusiasta e que chamava a atenção para este fato já ser conhecido pelos Jesuítas desde o século XVIII.

No dia a dia sua vida gira em torno de leituras, artesanato em tricô e crochê, aulas particulares de matemática e sua maior paixão: os netos. Ser avó é delicioso. As conversas e interesses são diferentes entre os dois o que enriquece a relação, então comenta que curte cada momento ao lado deles. Ela comenta aos risos que “ser mãe é muito chato, porque temos que cobrar dos filhos, ser avó é divertido porque cobramos dos pais”.

Já se passaram mais de 40 anos desde sua vinda para Lavras do Sul e ela ainda se encanta com o que diz ser o diferencial daqui: “Lavras tem um telurismo único! Essa energia que vem da terra aqui tem de sobra”.

Já se passaram mais de 40 anos desde sua vinda para Lavras do Sul e ela ainda se encanta com o que diz ser o diferencial daqui: “Lavras tem um telurismo único! Essa energia que vem da terra aqui tem de sobra”.